Sem titulo

Mal se dorme. Levanta-se, debilitado.
É a dor. Que nem se compara à dor física.
Ambas, ínfimas.

Como derrubar-se-ia uma torre construída com determinação?
Enfraquecendo-a.
E é isso. Várias derrotas.

Perco o que mais amo. O tempo.
É o tempo que me castiga. Mas é o tempo que me anima.
Ter a tarde para fitar o sol, e sorrir feito um tolo.
É isso. Esse é meu ouro.
A natureza. O tempo. O sol.

E me tiraram o tempo. Logo após, perdi minha liberdade.
Eu já não podia mais sentir o animal dentro de mim, solto.

E começava.


É sempre a mesma rotina. Acordar cedo, correr, pegar um ônibus.
Dentro do ônibus, costumo ter minhas reflexões. Mas não é o que tem acontecido.
Dentro do ônibus, imagino, crio, sonho... situações de liberdade. Correr. Saltar.
Escalar a montanha e, num penhasco, com vista para um oceano, o sol emerge, e só se vê um vulto num pico, com o sol na face.
Esbarram em mim. Preciso dar sinal, e sair.
Caminhar até a estação de trem, uma estação, e estou chegando. Chegando ao momento em que não há açoite, nem correntes. Mas uma grande coleira escrita "escravo moderno".
Ali na estação, fito as nuvens, com aspeto de areia amassada. E o sol, tímido.
Aquela pouca luz me anima. Me tira um leve sorriso no canto da boca. Esperança que reluz, como uma pequena bola de fogo. Ainda tenho chances de recuperar minha liberdade, assim como o sol, que nasce todos os dias, e mesmo que o cubram, ele tenta ser visto.

O trem chega. Caminho cheio de pensamentos.
Nenhum aproveitável. Nenhum realmente aproveitável.
As horas passam. Fim do expediente.
É noite. Está tudo escuro.
Já não vejo motivos pra ser liberto. Se o dia me inspira, a noite tem o propósito de me descansar.

E então, estou preso à um novo dilema.

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